Potiraguá, Bahia – Em uma noite de profunda reflexão e emoção no programa "Conversa com Derneval", a comunidade de Potiraguá foi convidada a mergulhar nos desafios e superações da maternidade atípica. No "Mês Azul", dedicado à conscientização sobre o autismo, as mães Andrea Neres, de Gabriel, e Adelvânia, de Ravi, compartilharam suas jornadas, desde a descoberta do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em seus filhos até as complexas dinâmicas de apoio familiar, o enfrentamento do preconceito e a luta por direitos e terapias essenciais na rede pública. O anfitrião Derneval conduziu a conversa que expôs a realidade dessas famílias, revelando a força inabalável de mães que se tornam verdadeiras guerreiras em prol do desenvolvimento e bem-estar de seus filhos.

A descoberta do diagnóstico é um marco na vida dessas mães. Andrea Neres, mãe de Gabriel, hoje com 4 anos e autista nível 3 não verbal, relatou que o processo começou quando seu filho, aos 8 meses, foi para a creche por sua solicitação. Foi no ambiente escolar que as professoras e a psicopedagoga começaram a observar comportamentos diferentes. "Quando chegou aos dois anos, a psicopedagoga sentou comigo, conversou comigo e falou que eu tinha que levar ele no neuro para me informar melhor sobre o autismo, que Gabriel vinha se comportando diferente de outras crianças", contou Andrea. Já Adelvânia, mãe de Ravi, um autista nível 3 também não verbal, descreveu uma jornada igualmente desafiadora. Após Ravi apresentar crises inexplicáveis, uma médica atenta a encaminhou para uma fonoaudióloga, mas o alto custo do tratamento era impeditivo. A solução veio com a creche Jardelina, onde, com acompanhamento multidisciplinar, foi possível realizar o rastreio que culminou no diagnóstico por um neuropediatra particular, após três meses de espera pelo SUS.

A rede de apoio e a reação familiar ao diagnóstico foram temas abordados com franqueza. Andrea, uma mãe atípica solteira, define sua rede de apoio de forma ampla: "Eu costumo dizer que todos que estão ao meu redor são minha rede de apoio." Ela narra como a chegada de Gabriel transformou sua rua, antes apenas de vizinhos, em uma "rua do amor", onde há mais carinho e respeito mútuo. Sua família, residente em Porto Seguro, embora distante, a incentiva a buscar informações e lutar pelos direitos de Gabriel. Adelvânia, por sua vez, conta com o suporte mais próximo: "Geralmente minha rede apoia eu, meu esposo, minha filha e minha vizinha." A presença de um sobrinho autista na família já havia preparado o terreno para a aceitação e o amor incondicional a Ravi, tornando a reação ao diagnóstico mais acolhedora.

O preconceito, uma sombra constante na vida das mães atípicas, foi discutido abertamente. Adelvânia confessou ter sofrido muito no início, vivendo dias de choro, mas aprendeu a lidar com a situação. "Hoje eu já sei lidar [com o preconceito], mas ainda existe muito preconceito e muito. Só que assim, a gente tem que estar preparada", afirmou. Andrea Neres foi ainda mais incisiva, denunciando que em Potiraguá "as pessoas elas fingem que não tem preconceito do que admitir que elas têm preconceito". Ela descreve situações cotidianas em mercados, igrejas e praças onde olhares e julgamentos são evidentes. Com uma postura firme, Andrea enfatiza: "Eu tô aqui para defender meu filho contra o preconceito, independente se é aqui em Potiraguá ou se é fora do país."

No que tange ao papel da saúde, as mães detalharam uma trajetória de lutas e conquistas. Adelvânia reconhece que, após um início complicado, onde as mães precisaram "apertar mesmo a secretária de saúde" para garantir os direitos previstos em lei, a situação se estabilizou. "Hoje, graças a Deus, meus meu filho é beneficiado pela saúde, para tirar guarda. Não tenho que a reclamar não", disse, ressaltando a importância das terapias multidisciplinares. Andrea, contudo, expressou preocupação com a interrupção dos serviços. "Meu filho ficou sem falar, sem terapia de novembro, até agora abriu. Meu filho que tava bobcheando, ele não tá mais, ele regrediu", lamentou, sublinhando que a paralisação de terapias pode levar à regressão do desenvolvimento.

A educação também foi um ponto de debate, com experiências distintas. Adelvânia elogiou a Escola Francisco Alves, onde Ravi estuda desde o ano passado, descrevendo-a como "uma escola exemplar", que se tornou sua "terceira família". Andrea, por outro lado, apresentou uma visão matizada sobre a creche onde Gabriel passou três anos. Embora tenha encontrado profissionais maravilhosos, que a cobravam e a apoiavam, também se deparou com aqueles que "preferiam que o TEA dormisse para não ter que incomodar eles cuidar de outra criança". A mensagem de Andrea para a educação é clara: "A educação, ela precisa entender o que é o autismo."

A rotina dessas mães é um testemunho de dedicação incansável. Andrea, sem uma rede de apoio fixa, descreve um dia a dia cronometrado e exaustivo, conciliando trabalho, casa e os cuidados com Gabriel. "O meu dia a dia, ele tem que ser ter horário. Não pode passar do horário, porque se eu passar do horário eu perco algo", explica. Adelvânia compartilha a mesma realidade: "Minha vida é uma rotina do levantar até eu deitar. Minha vida é uma rotina diária que se é destabilizar uma hora ali, meu, o dia fica totalmente diferente." Ambas as narrativas ilustram a força e a resiliência necessárias para gerenciar a complexidade da maternidade atípica.

Potiraguá, como muitas cidades brasileiras, enfrenta o desafio de oferecer suporte adequado às famílias de pessoas com TEA. A visibilidade dada pelo programa "Conversa com Derneval" e o engajamento de patrocinadores locais como Farmácia Manuel, Kelecom e Araújos Impressos, entre outros mencionados, demonstram um reconhecimento da importância da causa. No entanto, o relato das mães expõe as lacunas e a necessidade de uma estrutura mais robusta e contínua, especialmente na saúde e educação, para garantir que os direitos e o desenvolvimento de crianças como Gabriel e Ravi não sejam comprometidos por burocracias ou falta de entendimento.

A jornada de Andrea e Adelvânia é um clamor por mais empatia, conhecimento e recursos. A decisão de Andrea de ingressar na faculdade de Terapia Ocupacional, buscando ela própria se qualificar para ajudar não só Gabriel, mas a comunidade, é um farol de esperança. "Futuramente, né, a cidade vai ter uma TO na cidade que eu vou fazer terapia ocupacional", projeta. Essas mães não apenas buscam o melhor para seus filhos, mas também pavimentam o caminho para que outras famílias atípicas em Potiraguá encontrem um ambiente mais acolhedor e com mais oportunidades, reforçando que a luta pela inclusão e pelo respeito é contínua e essencial para a construção de uma sociedade mais justa e consciente.

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▶️ Assista à entrevista completa:

https://www.youtube.com/watch?v=sfEDUve0xnw