A retomada do programa "Conversa com Derneval", após um hiato de dois meses para ajustes, marcou um profundo mergulho nas complexidades da assistência social e na vitalidade cultural de Potiraguá, Bahia. O convidado da noite, o assistente social Eudes Dias, um cidadão potiraguense com raízes fincadas na cidade, desvendou as nuances de sua profissão e revelou o árduo trabalho por trás da captação de recursos culturais, oferecendo uma perspectiva técnica e humana sobre os desafios e as conquistas locais. A entrevista, que contou com a participação ativa de colaboradores e internautas, como o vice-prefeito Gegel do Povo, reforçou a importância do diálogo sobre temas que impactam diretamente a vida da comunidade.
Eudes Dias, que se descreve como uma pessoa reservada, enfatizou que sua trajetória profissional é fruto de "esforço, através de estudo", culminando em "pequenas vitórias na vida". Ao definir o que é ser um assistente social, ele desmistificou a visão comum da profissão. "Ser assistente social para mim foi uma coisa assim que na época quando eu comecei a fazer serviço social, fiz por vocação mesmo", explicou Eudes, ressaltando que sua escolha foi "voltada pra área de de estudo, de desenvolvimento de projeto, de gestão social", e não para a filantropia ou a caridade. Esta distinção é crucial para compreender o papel técnico e estratégico que o assistente social desempenha.
Ainda sobre a natureza da profissão, Eudes Dias foi categórico ao afirmar que o assistente social "não ajuda ninguém, não. Ele tem a formação dele é para garantir direitos. Ele é um garantidor de direitos". Contrariando a percepção popular de que a assistência social se resume a atos de bondade, ele explicou que o trabalho muitas vezes envolve "te dar um não, mas ele te dá um não para como uma forma de emancipação, como uma forma de esforço". Historicamente, o serviço social surge como um "reparador" na divisão social do trabalho, mediando conflitos e buscando soluções para a exploração e a vulnerabilidade decorrentes da falta de oportunidades, uma função que se mantém essencial até hoje.
O objetivo primordial da política de assistência social, segundo Eudes, é a emancipação do indivíduo e da família. "A política de assistência social não é daquela política pra pessoa ficar um ano, ficar 2 anos, ficar 5 anos na política de assistência social. Quando acontece isso, a política de assistência social ela é falha", pontuou o assistente social. Ele detalhou o processo para alcançar essa emancipação, que envolve conhecer o meio social, identificar as deficiências e, crucialmente, as potencialidades de cada família. "Não é só olhar para a família pela questão da fraqueza, pela questão das ausências dela. A gente precisa olhar para uma família pela questão da potencialidade", disse Eudes, indicando que a distribuição de benefícios, como cestas básicas, é "secundário", e o foco principal deve ser o desenvolvimento do potencial.
Eudes também compartilhou os desafios de atuar como assistente social em sua própria cidade. "Para mim trabalhar como assistente social em Potiraguá é difícil, porque a gente é daqui", confessou. A dificuldade reside em "separar o ser profissional do ser social, do ser pessoal", especialmente ao se deparar com situações de vulnerabilidade em bairros e lares onde antes não se tinha a dimensão do sofrimento. Esse impacto pessoal, de ver de perto a ausência de perspectiva de alimentação ou segurança em sua própria comunidade, torna o trabalho ainda mais exigente e demanda uma forte resiliência para manter a objetividade técnica.
Além de sua atuação na assistência social, Eudes Dias revelou-se um produtor cultural de sucesso, responsável pela captação de recursos para o município. Ele explicou que a Associação Cultural Ação e Arte, da qual faz parte, é reconhecida na Bahia como uma "fonte captadora de recurso", um feito que não é acidental, mas resultado de um "trabalho árduo de escrever, de passar horas e horas" em projetos que podem ter "200, 300, 500 páginas". Potiraguá se destacou no último edital da Bahia, sendo a cidade com maior número de recursos captados no Médio Sudoeste, com oito projetos aprovados de um total de 32 submetidos, demonstrando a persistência e a expertise necessárias nesse campo.
Ao abordar o perfil das famílias elegíveis para os serviços de assistência social, Eudes esclareceu que, diferentemente da saúde e educação, que são direitos universais, a assistência social "é prestada para quem dela necessitar". O foco são as pessoas em "situação de vulnerabilidade social", que não se restringe apenas à renda, mas abrange diversos aspectos. Em Potiraguá, por exemplo, a assistência social tem um olhar específico para cerca de 2.630 famílias de baixa renda, com renda mensal per capita de até meio salário mínimo. Ele também contextualizou a fala do prefeito Carvalho, que disse que "qualquer pessoa que vier aqui na assistência social não pode voltar com mão vazia", explicando que "entregar uma orientação pra pessoa também, você tá dando alguma coisa", o que está em linha com a visão de emancipação.
Um tópico de grande relevância abordado foi o corte de benefícios do programa Bolsa Família, uma preocupação levantada por um internauta. Eudes explicou que não se trata de uma decisão municipal, mas de uma revisão nacional. Ele contextualizou a evolução do programa, desde o Bolsa Família (2003) até o Auxílio Brasil (pandemia), que gerou um crescimento exponencial de beneficiários, em parte devido ao "desmembramento de famílias" — quando membros de uma mesma família se cadastravam individualmente para receber o benefício. O governo federal está agora "estancando essa sangria" através do cruzamento de dados, exigindo que as informações no Cadastro Único sejam o mais próximas da realidade para evitar cortes e garantir que o benefício chegue a quem realmente se enquadra nos critérios.
Potiraguá, um "município pequeno porte um", exemplifica as realidades de muitas cidades brasileiras que dependem de políticas sociais e da capacidade de seus profissionais para gerir e implementar esses programas. A menção ao CRAS local e o sucesso na captação de recursos culturais no território Médio Sudoeste da Bahia revelam uma comunidade que, apesar dos desafios inerentes a um município de menor porte, busca ativamente o desenvolvimento e a garantia de direitos através de um trabalho técnico e dedicado, seja na assistência social ou na promoção cultural.
A conversa com Eudes Dias deixou claro que a assistência social é uma área dinâmica e complexa, que exige não apenas conhecimento técnico, mas também uma compreensão profunda das realidades locais e um compromisso inabalável com a dignidade humana. O futuro da assistência social em Potiraguá, e em todo o Brasil, dependerá da capacidade de seus profissionais em continuar lutando pela emancipação dos indivíduos, pela transparência na gestão dos recursos e pela adaptação às constantes mudanças nas políticas públicas, sempre com o olhar voltado para o desenvolvimento integral da comunidade.
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▶️ Assista à entrevista completa:
https://www.youtube.com/watch?v=-_FEX7tWyfE
