Em um anúncio que reverberou na política de Potiraguá, Bahia, o Vereador José Carlos Ferraz Cigano, popularmente conhecido como Cigano, confirmou sua decisão de não concorrer nas próximas eleições. Durante entrevista ao programa "Conversa com Derneval", conduzido pelo apresentador Derneval, o parlamentar, que cumpre seu quinto mandato consecutivo, revelou que a pausa na vida pública é motivada por uma profunda tragédia pessoal: a perda de seu filho. A notícia marca uma virada na trajetória de um dos nomes mais longevos e votados do legislativo municipal, que agora se prepara para atuar apenas como eleitor após o término de seu mandato em 31 de dezembro.
A jornada política de Cigano teve início em 2000, ao lado de Edivaldo Cardoso, em uma campanha que resultou na vitória para a prefeitura. Quatro anos depois, em 2004, ele ingressou na disputa por uma cadeira na Câmara de Vereadores, sendo eleito em uma chapa robusta que contava com nomes como Jorge Chelles e Arivaldo Silva Santos. Desde então, sua presença no legislativo tem sido constante, caracterizada por um crescimento contínuo de sua votação. "É gratificante você chegar e ganhar as eleições e ver sua votação subir, mostra que você tá no caminho certo", afirmou o vereador, expressando o reconhecimento de seu trabalho pelos eleitores, especialmente no distrito de Coreia.
A decisão de não buscar a reeleição, embora anunciada agora, não é recente. Cigano revelou que já vinha amadurecendo a ideia de se afastar para dedicar-se mais à vida familiar e pessoal. Contudo, a recente e dolorosa perda de seu filho acelerou e solidificou essa escolha. "Depois do que ocorreu na minha vida familiar, não é fácil o que aconteceu recentemente. Eu te confesso a você que eu passo os dias difíceis pela falta do meu ente querido, do meu filho", desabafou Cigano, visivelmente emocionado. Ele enfatizou que, embora não seja candidato, continuará exercendo seu papel como vereador até o último dia de mandato, trabalhando e ajudando as famílias que o procuram, mas com a convicção de que "nesse momento não é, eu não sou candidato".
Ao longo de seus cinco mandatos, o Vereador Cigano destacou como uma de suas principais realizações o "projeto Habitacional" no distrito de Coreia, uma iniciativa que, segundo ele, perdura até hoje e reflete seu compromisso com a melhoria da moradia para as famílias. Ele atribuiu a facilidade de suas reeleições à confiança do povo, especialmente da Coreia, que "sempre me colocava lá, falava 'não, esse daí não tem jeito, está eleito mesmo'". No entanto, também reconheceu que houve "decepções" e, com humildade, pediu desculpas publicamente por não ter conseguido cumprir todos os compromissos, justificando que "tem hora que o vereador não tem a caneta na mão" para realizar certas demandas.
O cenário político atual de Potiraguá também foi pautado, com Cigano deixando clara sua posição e alianças. Ele reiterou seu apoio ao pré-candidato Maurício Portugal, diferenciando-o de figuras como Jorge Chelles e Diego Chelles, a quem ele respeita pessoalmente, mas que não são candidatos. Sua crítica mais contundente foi direcionada a Elias Carvalho, ex-secretário do Meio Ambiente e atual pré-candidato a prefeito. "Não trouxe nada pro município, nada de bom, nunca fez nada", disparou Cigano, acusando Carvalho de "só [estar] na pasta para receber o dinheiro final de mês", uma fala que, segundo ele, já foi objeto de discussão na Câmara, com o apoio do colega Ton de Ernesto.
As controvérsias sobre o uso de verbas públicas também ganharam destaque. Cigano abordou a investigação do Ministério Público sobre as diárias "exorbitantes" do Presidente da Câmara, Degel, alertando que "quem achar que vai pegar dinheiro público e ficar por isso mesmo vai dar errado". Mas a mira principal foi novamente Elias Carvalho, a quem o vereador apontou como "campeão de diária", acumulando quase R$ 60.000. "É um absurdo", declarou Cigano, conectando a "farra de diária" à falta de investimentos em áreas essenciais como hospitais e medicamentos. Ele, como fiscalizador, prometeu continuar o trabalho de questionar tais práticas e a presença de funcionários que, segundo ele, recebem salários sem trabalhar.
A entrevista também foi marcada por momentos de tensão com a participação dos internautas. Um questionamento direto de Paulo César dos Santos, que perguntou por que Cigano "abandonou o grupo do prefeito", provocou uma resposta veemente do vereador. Cigano acusou Santos de ser um "comedor de prefeitura" que recebe sem trabalhar, rechaçando a ideia de "abandono" e reforçando que sua mudança de apoio se deu em uma nova conjuntura política. A interação destacou a polarização e as acusações mútuas que permeiam o ambiente político local, com Cigano defendendo sua integridade e criticando a postura de quem, segundo ele, se beneficia do poder público.
Potiraguá, e em particular o distrito de Coreia, emerge do diálogo como um palco onde a política é vivida intensamente, com laços de lealdade e expectativas de serviço público que moldam as escolhas eleitorais. A menção de Mateus Santos, pré-candidato a vereador, sobre um "desejo de mudança forte" nos distritos "abandonados" reflete uma insatisfação latente e a busca por novas lideranças. Nesse contexto, a saída de uma figura tão estabelecida como Cigano das urnas para um cargo eletivo abre um vácuo e, ao mesmo tempo, um espaço para novas disputas e reconfigurações.
Com a iminente conclusão de seu mandato, o Vereador Cigano deixará um legado de cinco legislaturas marcadas por vitórias eleitorais consistentes e uma atuação focada em questões sociais, como a habitação. Sua transição para a figura de um eleitor ativo, mas sem a pressão da campanha, promete um novo capítulo para ele e para a política de Potiraguá. A eleição de 2024, sem a sua candidatura direta, certamente terá um sabor diferente, e a cidade aguarda para ver como as novas alianças e os desafios levantados durante a entrevista se desenrolarão nas urnas e na administração pública.
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▶️ Assista à entrevista completa:
https://www.youtube.com/watch?v=2Y2fnkPNgzo
