Em uma noite memorável no programa "Conversa com Derneval", transmitido de Potiraguá, Bahia, o público teve a oportunidade de mergulhar na rica trajetória de um dos mais queridos e multifacetados cidadãos da região: o professor e poeta Adelson Teles Pinto. A entrevista, conduzida pelo apresentador Derneval, que também é conselheiro, revelou não apenas a jornada pessoal e profissional de Adelson, mas também um panorama vibrante da cultura e educação local, pontuado por poemas e memórias que entrelaçam sua vida à história de Potiraguá. A conversa, que alcançou ouvintes até em Portugal, conforme Adelson fez questão de saudar sua irmã Carolina Baraúna, ilustrou a profunda conexão do convidado com sua comunidade e seu legado inestimável como educador e artista.

Nascido em Canavieiras, no litoral baiano, na metade do século passado, Adelson Teles Pinto, hoje aos 72 anos, descreveu uma infância e adolescência marcadas pela proximidade com o Rio Pardo, que desemboca em sua terra natal. Sua juventude foi dinâmica, com um período de estudos em Salvador, onde se dedicou ao desenho arquitetônico, e uma passagem de quatro anos pelo Rio de Janeiro, vivenciando a cidade maravilhosa em plena ditadura militar de 1976. Contudo, foi em 1979, aos 27 anos, que o "sertão" de Potiraguá o acolheu, trazido por seu irmão. Desde então, há 45 anos, a cidade se tornou seu lar definitivo. Com uma emoção palpável, ele declamou um poema dedicado à cidade, que carinhosamente chama de "mãe": "Juro que quando te conheci já sabia que teríamos um lindo caso de amor e foi assim, à primeira vista, uma bela conquista. Hoje te reconheço uma senhora mãe que há 45 anos me acolheu, me abraçou, me deu colo, me protegeu".

A paixão pela educação moldou grande parte da vida de Adelson. Ele faz parte da primeira turma de professores formada em Magistério no Colégio Rui Barbosa, em Potiraguá, ao lado de nomes como Ivete Amaral e Teresa Riba. Sua carreira foi um misto de dedicação e desafios, tendo trabalhado em diversas instituições como Santa Terezinha e Francisco Alves Costa – onde foi o primeiro diretor. Adelson recordou as dificuldades dos contratos temporários, sendo demitido em levas durante os governos de ACM e Waldir Pires. "Naquele tempo o ACM colocava 10 mil pessoas, hoje amanhã ele botava 15 para fora", relatou. A estabilidade veio com a aprovação em concurso público em 1993, dedicando 30 anos ao Colégio Anísio Teixeira até sua aposentadoria em 2023. Para ele, a maior recompensa é ver seus ex-alunos, como o próprio Derneval, "trilhando por diversos caminhos, escalando a pirâmide e se dando bem".

Questionado sobre as qualidades essenciais para o sucesso na carreira docente, Adelson enfatizou a necessidade de constante aprimoramento e dinamismo. "O profissional ele se torna referência ou excelência quando ele busca se aprimorar, fazer cursos, participar de eventos, estudar mesmo", afirmou, ressaltando que a educação, assim como outras profissões, exige atualização contínua. Sua própria trajetória é um testemunho disso, com formações em Técnico em Contabilidade, História (pela USB e PUC-Rio), Filosofia (USB), pós-graduação em Ensino de História e Africanidades, além de datilografia. A leitura, para ele, é fundamental: "Se você não ler, você é cego total".

A veia poética de Adelson Teles Pinto é tão marcante quanto sua dedicação à educação. Ele revelou que a poesia o descobriu muito jovem, influenciado pela mãe, uma leitora assídua. Para ele, a poesia nasce de dois grandes motivos: a alegria ou a tristeza. "Quando você está alegre, feliz, a poesia ela flui, ela é libertadora, falando poeticamente, ela é ave solta sem gaiola", descreveu. Por outro lado, a tristeza amarra o eu lírico, gerando versos de contestação. Inicialmente, suas criações eram guardadas em segredo, consideradas "feias" por ele mesmo. Foi o incentivo de colegas no Colégio Anísio Teixeira que o impulsionou a compartilhar seus versos, revelando ao mundo sua alma eclética, que transita por temas como futebol, política, problemas sociais, meio ambiente, família e religião.

A produção literária de Adelson já se materializou em 15 coletâneas, marcando sua presença no cenário poético baiano e nacional. A primeira, "Bar do Baiano", foi um marco, reunindo poetas do médio sudoeste da Bahia. Ele destacou, contudo, "Poesia Educa" como a mais importante, por envolver todos os elos da cadeia educacional, do porteiro à merendeira, e já está em sua quarta edição. A pandemia de COVID-19, com o surgimento das lives, foi um catalisador para que Adelson expusesse publicamente suas criações. Durante a entrevista, recitou o poema "Eta ferro", de cunho social e político, que aborda a passagem do tempo e as marcas deixadas na vida, comparando pessoas a gado enfileirado em um "sinistro matadouro", uma obra que demonstra a profundidade de sua observação social.

Além de professor e poeta, Adelson é um notável articulador cultural de Potiraguá. Ele rememorou com carinho sua participação no grupo de teatro de Reginaldo de Santinha, uma figura que ele considera o "primeiro articulador cultural" da cidade nos anos 80 e 90. Reginaldo, filho da professora leiga Dona Santinha, era um visionário que criava, escrevia e dirigia peças com temas sociais, como "O Direito de Ser Mãe" e "Mãe para Sempre", envolvendo uma tropa afinada de atores locais. "Foi uma pessoa que sempre ele era filho da Dona Santinha [...] ele criava, ele escrevia, era roteirista, ele escrevia, ele escolhia os atores", detalhou Adelson, sublinhando a importância desse movimento amador para a cultura local.

Sua contribuição cultural se estende aos festejos populares, sendo um dos fundadores do tradicional bloco junino "Olha Nós Aqui Outra Vez", que há mais de 30 anos (31 com camisa, mais 6 ou 7 sem) anima as ruas de Potiraguá sem nunca aceitar patrocínios políticos. O bloco, que surgiu do costume de visitar casas para tomar licor, é conhecido por suas camisas temáticas que abordam de dengue

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▶️ Assista à entrevista completa:

https://www.youtube.com/watch?v=x-aheBoLYSY